Conselho Municipal do Patrimônio Cultural COMPAT Mariana Minas Gerais
Zelando pela nossa História

O APOGEU DO OURO

Em 1703, Antônio Martins Pereira, fundador do povoado de Antônio Pereira, havia adquirido os bens de Manuel da Cunha e em 1712 iniciou a construção “logo ao pé de sua casa, ou pouco acima no planalto de uma ermida consagrada a Nossa Senhora da Conceição”.  Nela foi entronizada a imagem de Nossa Senhora da Conceição trazida pelo Governador Albuquerque, que ainda lá se encontra.

As reformas necessárias na estrutura da Vila do Carmo se juntavam oportunamente com a urgência de se escolher  uma localidade condigna para receber o título de cidade, elevando-a na hierarquia dos lugares importantes no contexto político das Minas Gerais em meados do século XVIII. Na forma de governar adotada pelos reis de Portugal a tática era a de se dissolver o poder entre as elites locais para que os conflitos convergissem para o aparelho burocrático lusitano, apresentando a Coroa como símbolo da justiça.

Sob esse aspecto e outros mais, a Vila do Carmo foi considerada apropriada e assim, em 1745, foi elevada à categoria de cidade e batizada com o nome de Mariana, em homenagem à rainha Maria Ana de Áustria, esposa de D. João V.

Mariana foi a primeira vila de Minas Gerais e a primeira localidade da capitania a receber foros de cidade. 

Ainda em 1745, a cidade também tornou-se sede do Bispado, mediante a bula Candor Lucis Aeternae do Papa Bento XIV e seu primeiro titular, Dom Frei Manuel da Cruz, chegou às paragens mineiras  em 1748. Depois de longa e penosa viagem a partir do Maranhão, foi recebido em Mariana com grandes festas, narradas na crônica Áureo Trono Episcopal.

Com isso, o título de Capital da Província passou a pertencer a Vila Rica, cuja proximidade permitia o governo conjunto dos dois poderes que dominavam a nova terra, o religioso e o temporal.

Para receber a grande autoridade recém-chegada já estavam prontas as obras na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cujo exterior de forma quase quadrada em taipa escondia um interior magnífico, possuindo galerias laterais na nave que comportavem outros altares além do mór e em que tinham trabalhado diversos artistas e artesãos por anos a fio.

 

 

A  Matriz de Nossa Senhora da Assunção de Mariana, a Sé, antiga Capela de Nossa Senhora da Conceição, construída por Antônio Martins Pereira em 1712 e reformada posteriormente. 
O belíssimo interior da Catedral da Sé de Mariana, que reúne em seu acabamento todos os estilos do três períodos barrocos. 

 

O teto da capela-mór é obra de Manuel Rebelo de Souza, em 1760.

 

Em 1727 foram concluídas as obras de talha e douramento do altar-mór, com execução de José Martins e Manuel de Sousa e Silva.

 

A grande imagem de roca de Nosso Senhor dos Passos, que desde o século XVIII sai nas procissões da Semana Santa.
Retábulo de São Miguel e Almas, com talha de 1751 por José Coelho de Noronha, autor de outras obras na Sé, Amaro dos Santos e Manoel João.
O cadeiral dos Cônegos da Sé de Mariana, uma bela expressão do estilo chinoiserie, de autor desconhecido.
O teto da nave mostra a Virgem da Assunção com as armas reais e é também de autoria de Manuel Rebelo de Souza.

Como gesto de boa vontade e satisfação pela escolha do nome da rainha para batismo da nova cidade, o Rei Dom João V enviou como presente ao Bispo e à Matriz um órgão construído na primeira década do século XVIII em Hamburgo, Alemanha, por  Arp Schnitger (1648-1719), um dos maiores construtores de órgãos de todos os tempos. Enviado inicialmente a uma Igreja Franciscana em Portugal, o órgão chegou ao Brasil em 1753 e é o único dessa fabricação que se encontra fora da Europa.

O raro órgão Arp Schnitger da Catedral de Nossa Senhora da Assunção, a Sé de Mariana.

 

Outros templos surpreendentemente belos já haviam sido edificados a essa época nos ricos arraiais de mineração que rodeavam Mariana, como a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré do Inficcionado, atual Santa Rita Durão, que teve a sua bêncão inaugural em 1729, datando o início de suas obras nos primeiros anos do século XVIII; a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Camargos, cuja construção começara em 1707 e cujo interior é no estilo Nacional Português; a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de São Caetano (atual Monsenhor Horta),  fundada em 1730 pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, com obras e decoração interna em estilo joanino prolongadas até o século XIX. Lá se encontra sepultado Salvador Furtado de Mendonça, o bandeirante criador do arraial do Carmo em 1696. A Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus do Monte de Furquim, começada em 1745, guarda a imagem do santo titular que era venerada em uma capela anterior a 1706, erigida no Morro do Judeu e que caíra.

Em Mariana a Capela de Sant'Ana teve a sua construção iniciada em 1720 em moldes harmoniosos, com o seu interior no estilo do Barroco de Primeira Fase ou Nacional Português.

 

Capela de Sant'Ana de Mariana

A partir de 1750 as Ordens Terceiras das Irmandades floresceram e isso se traduziu na construção de mais igrejas, em clima de rivalidade e entusiasmo. As Artes e Ofícios na região das Minas, já em franco desenvolvimento, tiveram então um impulso notável e puderam se expressar pela multiplicação dos canteiros de obras em inúmeras vilas e cidades.

 

Era o apogeu do ouro, posto a serviço da Religião e da Política.

A Mariana da segunda metade do século XVIII numa interessante comparação com a foto abaixo, de Sílvio Lúcio.
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