Conselho Municipal do Patrimônio Cultural COMPAT Mariana Minas Gerais

Zelando pela nossa História

O LEGADO DAS IRMANDADES

 

 

Enquanto as Irmandades das Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco se desdobravam e se emulavam pela construção de suas igrejas, outras Ordens Menores viram-se no dever de fazer o mesmo, ainda que com recursos mais escassos mas com o resultado de edificações de qualidade e bom gosto na decoração dos interiores.

 

 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Mariana

 

O ocorrido na execução da obra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Mariana retrata bem a disposição dos congregados de se fazer um templo com emprego de alguns dos melhores artífices da época, sem poder contar com numerário suficiente para isso e com enormes sacrifícios.

Consta que a Irmandade do Rosário é uma das mais antigas da região, estabelecida talvez em 1711. Havendo saído da Capela do Carmo do Matacavalos, os irmãos lançaram a pedra fundamental de sua igreja em 14 de maio de 1742.

 

 

Vista da nave da Igreja do Rosário, com o retábulo-mór ao centro e os dois altares laterais.
A camarinha com seu trono,  encimado pela imagem da Virgem do Rosário.

O responsável pela construção foi o arquiteto português José Pereira dos Santos, que já fizera então várias obras notáveis em Mariana e Ouro Preto. O mestre-carpinteiro foi Sebastião Martins da Costa, que entregou o seu trabalho em 1764. Sua morte impediu que erigisse as torres, trabalho completado apenas em 1814.

Para os adornos do interior foram contratados dois dos maiores artistas do Barroco brasileiro: o escultor e entalhador português radicado em Mariana Francisco Vieira Servas para a feitura dos altares e imagens e o pintor Manoel da Costa Athayde, nascido em Mariana em 1762, para o douramento e policromia dos mesmos.

 

Teto do forro da capela-mór, de Manoel da Costa Athayde. 
Santa Efigênia, de autoria de Francisco Vieira Servas.
Na magnífica talha de Francisco Vieira Servas, um par de querubins de altar com volutas e rocalhas.
Na magnífica talha de Francisco Vieira Servas, um par de querubins de altar com volutas e rocalhas.

 

 

Em 1826 foram finalizados os trabalhos de douramento e pintura da Igreja do Rosário e as dificuldades de acerto com os autores das obras começaram. O encarregado da louvação, ou seja, da revisão do trabalho pronto para aprovação, o pintor Francisco Xavier Carneiro, não deu o serviço por terminado, alegando inclusive uso de folhas de prata no lugar das de ouro em alguns pontos do altar-mór. Com isso, Athayde deixou de receber a parte final de seu pagamento contratado, o que já havia acontecido com Vieira Servas que já estando bastante idoso, veio a falecer sem que lhe pagassem o devido. A questão terminou em um processo escandaloso para a época, indo além do ano da morte de Athayde, em 1830.

 

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário porém, permaneceu bela e imponente no alto de sua colina, desafiando o tempo.

 

 

 

A 27 de maio de 2017 a Igreja de Nossa Senhora dos Pretos de Mariana foi finalmente devolvida á sua cidade, depois de um cuidadoso restauro de seus elementos arquitetônicos e artísticos encetado pelo Instituto Andrade Gutierrez,

com os subsídios recebidos do PACH/Mariana.

Procedeu-se na ocasião a implantação do Museu Francisco Vieira Servas em seu anexo, numa homenagem a um dos grandes artistas que nela trabalharam.

 

 

Banqueta e sacrário de retábulo lateral.
Igreja de Nossa Senhora das Mercês 

O levantamento da Igreja de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos de Mariana teve uma história mais tranquila. A sua Irmandade, que surpreendentemente segue até hoje praticando seus rituais setecentistas, foi constituída oficialmente a 16/05/1787, existindo, porém, muito antes dessa data, tanto que o historiador Cônego Raimundo Trindade cita a provisão de bênção da Igreja em 28/01/1769.

 

Interior da nave da Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Mariana

"Coube à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, constituída formalmente por Provisão de 16 de maio de 1787, a iniciativa da construção da igreja.

Existe, entretanto, controvérsias entre os historiadores com relação a dados para possível esclarecimento da data de início das obras. Cônego Raimundo Trindade indica a data de 28 de janeiro de 1769 para a provisão de benção da igreja, enquanto Salomão de Vasconcelos aponta o ano de 1787 para o início das obras.

Provavelmente, a exemplo do ocorrido com outras igrejas mineiras do período, tenha existido anteriormente uma capela da Irmandade, verificando-se mais tarde a edificação da igreja definitiva.

A inexistência de elementos documentais, impossibilita também o devido esclarecimento sobre a autoria do projeto e das obras de construção. Embora dada como construída em fins do século XVIII, o que parece ser justificado pela solução adotada em seu frontispício, é constituída, entretanto, na sua parte principal, por estrutura em madeira e taipa, recursos construtivos já abandonados nas construções religiosas daquele período.

Possivelmente, em 1871, o edifício se encontrava em obras, uma vez que naquele ano a Irmandade solicitou à Câmara Municipal a doação de degraus de pedra do antigo Pelourinho da cidade, então demolido, para a construção de uma escada para o Presbitério da Capela. Esta hipótese encontra sustentação na ampliação do telhado, indicando aumento ou reforma do corpo principal e da sacristia. No século XX, novas restaurações e alterações ocorreriam, algumas delas descaracterizantes como a de 1936, quando foram realizados os seguintes serviços: substituição dos velhos muros de pedra do jardim por balaustrada; entijolamento do átrio, em lugar das lajes antigas; colocação de aldrabas cimentadas nos beirais.

A Igreja de Nossa Senhora das Mercês se assemelha, tanto na arquitetura como na decoração da talha, com a capela da Arquiconfraria de São Francisco, construída pela mesma época. Sua fachada é encimada por um campanário, como a maioria das capelas de fins do século XVIII, resguardando, entretanto, a feição das construções do início do século, especialmente por se tratar de uma construção de madeira e taipa. Internamente caracteriza-se pela simplicidade do conjunto das talhas e despojamento decorativo dos altares laterais. As colunas são retas e lisas, assim como os captéis. O altar do lado do Evangelho pertence, desde a sua origem, ao grupo da Sagrada Família. As imagens são em madeira, decoradas em ouro. O altar do lado da Epístola, é consagrado a Nossa Senhora do Parto, obra também rara, talhada em madeira e dourada, parecendo da mesma procedência. Destacam-se no conjunto, as grades do coro e a balaustrada da nave, em madeira torneada, de jacarandá preto.

Além das imagens de boa qualidade, a igreja conserva na sacristia painéis, objetos de cunho religioso, uma mesa artística que pertenceu ao Frei Cipriano e poltronas em estilo Luís XV, que foram de D. Manuel da Cruz, primeiro bispo de Mariana".

Fonte: portal.iphan.gov.br

Igreja da Arquiconfraria de São Francisco dos Cordões de Mariana, dedicada a Nossa Senhora dos Anjos

"A Arquiconfraria do Cordão de São Francisco foi instituída em !760 por Dom Domingos Pontevel, Bispo de Mariana, e congregava homens de cor. No ano de 1784 a construção da Igreja foi começada,  estendendo-se os trabalhos até 1874 ou 75.

Sua característica ímpar dentre as demais em Mariana é o frontespício quebrado em três planos.

Entre 1850 e 1880 a Igreja passou por uma grande reforma, dentre as muitas que lhe foram feitas no decorrer do tempo.Coube à Arquiconfraria do Cordão de São Francisco, fundada em 1760, a construção da primitiva capela, provavelmente transformada em capela-mor do templo definitivo, cuja construção se deu a partir de 1784, data em que a Arquiconfraria foi constituída formalmente. A inexistência de documentação no arquivo da Igreja relativa à sua época de construção, impossibilita o devido esclarecimento sobre os artistas que ali trabalharam, bem como as etapas de evolução e conclusão das obras.. Pode-se, todavia, a partir de estudos comparativos, suspeitar da participação dos artistas Romão de Abreu, José Antônio de Brito e Manuel da Costa Athaíde nos trabalhos da igreja. Em 1843, diante da necessidade de reedificação do templo, a Assembléia Legislativa Provincial autorizou a concessão de duas loterias para a realização das obras. Estas, entretanto, parece que só tiveram início em 1853, conforme indica o Livro de Receita e Despesa da Arquiconfraria. Pelo mesmo documento, pode-se inferir que as obras se prolongaram até 1874/1875 e compreenderam a reforma do frontispício, reconstrução da torre, obras na capela-mor, no coro e nos corredores, telhado, forro, assoalho e grades.

De acordo com o levantamento feito pelo IPHAN, em 1949, todas as paredes da capela-mor são de alvenaria, com as cimalhas em pedra lavrada do arco-cruzeiro para cima. A nave é de adobe, até o telhado, com as cimalhas de madeira, marcos e folha de caixotões, com vidraças nas partes externas. A capela, o corredor direito e a dependência dos fundos são assoalhados, enquanto a sacristia e o corredor esquerdo são em cimento e ladrilhos. Os marcos da sacristia são em pedra e folha de almofada, o mesmo ocorrendo com a capela do Santíssimo, enquanto a capela-mor apresenta óculos de pedra com vidros. O arco-cruzeiro é todo de madeira. A torre, também de adobe e com os pés direito em madeira, é encimada por uma cruz de ferro. Quanto à pintura, a capela apresentava as seguintes características à época do levantamento: as paredes externas amarelas, a cal e ocre; as internas da nave e corredores brancas, a cal; a capela-mor com pintura a óleo, imitando mosaicos; marcos, folhas e barras a óleo, em cores variadas; altar-mor dourado a purpurina; altares laterais brancos, com fundo azul claro; capela do Santíssimo com teto branco e paredes a óleo, já desbotadas. Segundo o historiador Salomão de Vasconcelos, esta capela é a única de Mariana que obedece ao tipo especializado de frontispício quebrado em três planos, a exemplo de Sabará, Santa Bárbara, Caeté, Catas Altas, Conceição do Serro e outras cidades mineiras.

Apresenta interior simples, com altares compostos de colunas retas, arcos, capitéis e rendilhado acompanhando o estilo das colunas. Verifica-se, entretanto, distinção entre o desenho dos altares, podendo-se supor, ou que foram executados em épocas diversas, ou obedeceram ao gosto particular de cada Irmão a quem tenha sido confiada a decoração. O altar-mor é composto por bela talha e abriga uma imagem antiga de Nossa Senhora dos Anjos. Nos nichos laterais encontram-se imagens igualmente antigas de São Francisco e São Domingos. Na sacristia, pintura a óleo de excelente qualidade retratando Nossa Senhora. Cabe destacar ainda, quadro bastante expressivo, pela concepção e execução artística, representando São Francisco na meditação e no êxtase, junto ao símbolo da Sagrada Paixão e Morte de Cristo. Ao lado direito e esquerdo da Igreja fica o cemitério, onde estão enterrados os Irmãos pertencentes à Irmandade". 

Fonte: portal.iphan.gov.br

Interior da nave da Arquiconfraria de São Francisco dos Cordões de Mariana
Crucifixo de autoria desconhecida, século XVIII.
Conjunto de imagens de roca da magnífica coleção da Igreja da Arquiconfraria de Mariana.
Conjunto de imagens de roca da magnífica coleção da Igreja da Arquiconfraria de Mariana.
Outro conjunto de imagens de roca, com lanternas, tocheiros e cruz processional

A excelência de decoração de seus altares e dos detalhes da nave levam os especialistas a atribuir o seu trabalho a grandes artistas da época, como Manoel da Costa Athayde, José Antônio de Brito e Romão de Abreu sem, entretanto, existir documentação que comprove o fato.

Igreja de São Pedro dos Clérigos 

 

Poucos documentos existem sobre a Igreja de São Pedro dos Clérigos de Mariana e assim a sua história é obscura, perdidos no tempo os seus detalhes.

Erigida naquele que até então havia sido chamado de Morro da Forca, local de suplícios, por iniciativa de Dom Frei Manoel da Cruz, o primeiro Bispo de Mariana, que legou à construção da Igreja em seu testamento a quantia de três mil cruzados, foi provavelmente iniciada em 1748.

Como a Irmandade de São Pedro dos Clérigos carecia de meios, as suas obras se arrastaram pelo tempo.

O risco do arquiteto José Pereira dos Santos, com a colaboração de Manuel Francisco de Araújo, é similar à que fizera para a Igreja do Rosário de Ouro Preto e foi desenvolvida pelo português Antônio Pereira de Souza Calheiros, a partir do desenho de duas elipses entrelaçadas. Na execução da obra estão nomeados apenas dois pedreiros: Manoel Francisco e Joaquim de Ascas.

Interior da nave e detalhe do retábulo-mór da Igreja de São Pedro dos Clérigos, o único de que dispõe.
A imagem de São Pedro, com o seu interior oco, é considerada a maior do gênero no Brasil, medindo 2,13 de altura.

A permanente falta de recursos da sua Irmandade atrasou as obras da Igreja por mais de um século, apesar do Bispo Frei José da Santíssima Trindade tê-las continuado após 1820 e logo paralisando-as. Apenas depois de D. Silvério Gomes Pimenta, nascido em Mariana, ter assumido o Bispado em 1897 os trabalhos foram retomados e concluídos de fato, já no século XX, quando as suas duas torres foram terminadas em1922, por ordem do Arcebispo Dom Helvécio Gomes de Oliveira.

Não há qualquer registro dos artistas que trabalharam em seu interior, que não possui douramento, policromia e tampouco retábulos laterais.

Surpreendentemente, a sobriedade e o despojamento que poderiam depreciá-la dela fazem obra única, plasmada no entalhe requintado do cedro avermelhado, volutas e rocalhas luzindo suaves à meia luz da nave.  

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